Crónica Inclusiva: Percursos

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Crónicas inclusivas: Uma parceria Pais Habilitar e Diário de Aveiro

Percursos

Uma vida com transtorno do espectro autista é uma vida com especificidades, e isso é hoje mais ou menos reconhecido.

“Ora, especificidades têm todas as vidas” dirão alguns. Sim, isso também é reconhecido por qualquer pessoa minimamente informada, ou até desinformada, nestes tempos de verdades duvidosas e “fakenews”.

Chamar particularmente a atenção para as especificidades de uma vida afetada por transtornos do espectro autista, ou outro tipo de singularidades enquadráveis nas Perturbações do Neurodesenvolvimento justifica-se porquê?

Quando na escola dos nossos filhos afetados por uma perturbação deste tipo, os professores simplesmente desesperam e não sabem como fazer para enquadrar aquela criança, que não escreve, responde muito assertivamente, roçando a falta de educação, se balança na cadeira ou bate repetidamente com os pés no chão;

Quando a escola nos diz que, dadas as circunstâncias, a criança terá de ficar retida, pois não é possível avaliá-la;

Quando na família e na escola muitos nos dizem que talvez o que esteja a faltar seja…uma boa palmada ou uma disciplina mais pesada;

Quando os nossos filhos não são capazes de conviver com os colegas nem de ir a uma festa de anos mesmo que hipoteticamente convidados;

Quando os nossos filhos se recusam a ir à escola, porque nada do que lá se passa faz sentido para eles, e temos que explicar às instâncias escolares que parece esquisito, mas … para quem conhece, e está por dentro do percurso desta vida, faz sentido, um sentido diferente;

Chamar a atenção porquê?

Quando os nossos filhos revelam uma capacidade fantástica para entender fenómenos e fórmulas complexas que, após 20 anos de escola nós não entendemos perfeitamente;

Quando os nossos filhos são perspicazes e sensíveis, e nos ensinam coisas novas sobre imensas matérias, mesmo que sobre banda desenhada japonesa e videojogos;

Quando os nossos filhos, após justificarem de uma forma absolutamente lógica, inatacável e angustiante, que não acham mais valia nenhuma a frequentar o ensino normal, mas se abalançam a tentar programar um videojogo;

Quando os nossos filhos, com acompanhamento profissional, mas também cúmplice entendimento familiar, se revelam afinal capazes de fazer quase tudo, e finalmente até se inserem em muitas rotinas sociais;

Quando os nossos filhos se revelam cidadãos afinal tão corretos, cumpridores e preocupados com o bem-estar geral;

É preciso chamar a atenção para as dificuldades do percurso.

Para que nenhum destes cidadãos fique pelo caminho, para que ninguém tenha o direito de interromper o percurso.

Se o professor souber mais, se a educadora do jardim de infância souber mais, se a diretora de turma souber mais, se a família souber mais, se o dono da empresa souber mais, fica tudo igual?

A esperança da Associação Pais e Amigos Habilitar é que saber mais é condição para fazer melhor, para viabilizar o percurso.

É preciso chamar a atenção.