Crónica inclusiva: Não ver para além de. Ver aquém.

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Não ver para além de. Ver aquém.

Crónicas inclusivas: Uma parceria Pais Habilitar e Diário de Aveiro

 

 Todos os pais se deparam com perguntas difíceis. Debatem-se. Há livros escritos sobre o assunto. No topo da lista estão o sexo, as drogas e o rock & roll.

Estes nossos filhos, é sabido, fazem-nos colocar tudo em perspetiva. Também há livros sobre o assunto. Clássicos. Revemos a importância que damos às coisas, a importância de cada coisa. Tudo em perspetiva.

Também nas perguntas acabamos por perspetivar. Mais ainda nas difíceis. Como responder?, quando parece tão difícil. Impossível. Acabo sempre por fugir, que nem fabular sobre as abelhas consigo. Que (me?) envergonha.

Porque é que se ri de mim? Porque é que me expõe? Porque é que não quer brincar comigo? Porque é que nunca vou a casa dela?

O argumento pode ser esse, o da crueldade das crianças. Sem filtros. Inerente à sua brutal honestidade. Nada a dizer.

Mas a essência? A essência está longe de ser essa. A essência está em identificar a diferença depreciativamente, não em apontá-la.

A Rita é a irmã do meio. Cá por casa não é habitual ouvi-los falar sobre determinadas características das pessoas. Se são altas, magras, como é a pele, o cabelo. (A primeira vez que a nossa filha mais velha reparou numa pessoa obesa, que era de facto de uma obesidade mórbida, tentou falar comigo, perdida e às voltas, à procura do conceito e das palavras. Não encontrou a mais óbvia. Teria uns 6 anos.) Não digo que não comentemos. Longe disso. Tão imperfeitos que nós todos somos, cá por casa. Mas há uma outra parte, a da crueldade. Que os comentários com honestidade vêm cá de dentro, não vêm? E o pensamento, esse…

A irmã é hoje adolescente. (Já percebeu que há pessoas mais ou menos magras, ou extremamente, mais, menos ou extremamente gordas.) Não costuma falar dessas características das pessoas. Nem mesmo em segurança, entre nós. Quando não identifica as estereotipias que a nós nos parecem claras, sinto orgulho nela, porque as conhece. Não vê para além de. Vê aquém. Mérito só dela. Que nós mandamos em quase nada. Mas há uma parte que vem cá de dentro, não há? Sem filtros. E o pensamento, esse…

Porque é que se ri dela? Porque é que a expõe? Porque é que não quer brincar com ela? Porque é que nunca vai a casa dela?

Igualmente impossível, formular respostas às suas perguntas. Impensável.

É sabido que há literatura para nós, os pais destes nossos filhos. É sabido que há literatura para os pais dos outros filhos. Que também somos nós. Variada e para todos os gostos. O que não descubro é literatura para os pais dos amigos dos nossos filhos. Se calhar há. Provavelmente não há é leitores.

Há uns tempos, cá por casa, íamos fazer uma qualquer coisa empolgante. Eu e a Rita. “É canja“, disse ela, muito animada. Estranhei o termo, que as figuras de estilo são pouco ou nada compreendidas por esta nossa filha. Perguntei-lhe o que era isso, de ser canja. “É canja, mãe, quando é muito difícil. Quando estamos na escola e a professora nos pede para fazer uma coisa difícil, isso é canja, mãe!”

Mãe da Rita