Crónica inclusiva: Sejamos mais Aldeia

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Sejamos mais aldeia

Crónicas inclusivas: Uma parceria Pais Habilitar e Diário de Aveiro

Há um ditado que diz “a quem meus filhos beija minha boca adoça”.

Eu diria: quem faz bem aos meus filhos, no meu coração ficará para sempre.

Hoje falo do apoio informal, isto é, da rede, da aldeia, que a minha filha, portadora de uma doença rara, tem e pela qual não poderia estar mais grata. O pai licenciou-se em ensino do Primeiro Ciclo e fez uma pós-graduação em necessidades educativas especiais. Eu, mãe, realizei, durante a minha licenciatura, um curso de língua gestual portuguesa. Qualquer um de nós pensou completar a sua área de formação. Nunca pensámos utilizar estes conhecimentos em termos pessoais, com um filho nosso. Como todos os casais imaginámos uma vida perfeita sem grandes sobressaltos, mas aprendi que a vida é feita de imperfeições e é aqui que reside a verdadeira perfeição. Um percurso feito de choro, grito, revolta, aquilo que a psicologia chama de “negação”, que só depois dá lugar à “aceitação” da realidade.

Muitos dizem: “A tua filha teve a sorte de calhar nuns pais especiais”. Muito pelo contrário. A minha filha tornou-me especial, ela faz com que os outros sejam especiais, ela faz com que os outros, ao se manifestarem, sejam ou procurem o melhor de si. Esta sua capacidade criou uma aldeia… À auxiliar de acção educativa, que recorta diariamente à saída da escola um coração, e por isso temos corações de todas as cores, de todos os tamanhos e materiais, porque acredita que através do amor ela terá um desenvolvimento igual à de uma outra criança da sua idade; à vizinha que sabe tudo sobre “make-up”, verdadeiro manual de boas maneiras; à outra vizinha que conduz a sua mota a uma velocidade super sónica como mais ninguém deixando um sorriso largo e que lhe faz um cesto com alças improvisadas e repleto de tangerinas que colheu só para ela do seu quintal; à cadela que espera pacientemente do lado de lá da janela para a avistar quando ela passa ao fim da tarde pela rua; à professora de yoga, uma guerreira com um sabre de luz, parece retirada de um conto de fadas, onde todos os seres são seres de luz que ao anoitecer adormecem no centro da terra aconchegados e protegidos pela mãe natureza; à senhora do café que faz o melhor leite creme só para ela; aos treinadores do irmão que a deixam entrar em campo e todos se envolvem para que não seja atacada por nenhuma bola; à sua professora e aos terapeutas, também eles especiais. A todos os que ela toca, a todos os que encetam com ela esta  cruzada, o meu obrigada! |

Neuza Lourenço

Mãe da Constança