paishabilitar/ Fevereiro 4, 2018/ Testemunhos

Eu sou mãe da Rita. Este é o meu testemunho sobre o projeto Habilitar. E não só.

Não sou nenhuma personagem principal.

Nem somos nós, a família. Nem os profissionais que a
acompanham. Nem o Habilitar.

A personagem principal é a Rita.

A personagem principal são todos os meninos e meninas que, como ela, são apoiados pelo projeto HABILITAR.

 

Tenho três filhos, para nós todos eles especiais.
Dizem que a Rita é ainda mais especial, classificando-a como especial na sua própria escolaridade.
Não sei se consigo aqui explicar o caminho que percorremos à procura de respostas. E como foi encontrar
essas respostas. A Rita parece-se com qualquer outra criança. Parece que não era óbvio.

Chegámos à consulta de neurodesenvolvimento quando a Rita estava a poucos meses de completar os 7 anos.
Gastámos energia (demasiada) e passámos tempo (demasiado), enrolados entre profissionais menos
preparados e novelos burocráticos. Foi a ELI, com o seu apoio inestimável, que nos indicou a porta do
neurodesenvolvimento. Fomos nós que sinalizámos a Rita na intervenção precoce. Foi por nossa insistente
iniciativa que conseguimos a inscrição da Rita no neurodesenvolvimento. Parece que não era óbvio.

Chegámos à sua porta no dia seguinte a sabermos que o recurso à recusa do pedido de adiamento de entrada
na escola básica tinha sido aceite. Primeiramente indeferido. Parece que não era óbvio.

Chegámos à consulta de neurodesenvolvimento e foi óbvio. Foi finalmente óbvio.
A equipa acompanha crianças com perturbações de neurodesenvolvimento.
Conceitos que viviam longe de mim. Autismo. Trissomia. Outros tantos nomes distantes.
Tão perto de mim, há esta qualquer coisa com um (talvez) nome que não (me) traduz significado.
Tão perto de mim, há esta criança espantosa. Uma menina com dificuldades cognitivas (agora) mais claras. Tão
dotada no seu entendimento de interações e emoções.
Chegámos à consulta de neurodesenvolvimento e foi óbvio. Foi finalmente óbvio. E por aí poderia ter ficado.
De imediato começámos a trabalhar. Consultas, sessões, intervenções, terapias…
Com dinheiro poderíamos pagar coisas com esses nomes. Vamos pensar que o temos. O dinheiro. Consultas,
sessões, intervenções, terapias, … Irrelevantes, os nomes. Possivelmente relevantes, os resultados.
No Habilitar não interessa se não temos o dinheiro. No Habilitar não interessam os nomes. No Habilitar vai-se
além dos nomes e do dinheiro. Definem-se estratégias. Alinham-se profissionais. Realinham-se estratégias.
Interagem intervenientes. CHBV. Habilitar. Escola. Família. A resposta óbvia. Obrigatória.
Chegámos à consulta de neurodesenvolvimento e por aí poderia ter ficado. Mas não ficou. E nada voltou a ser
como antes.

Os resultados são como o trabalho. Óbvios. Gigantes. Diários.

As dificuldades não são menores.

Que o quadro pinta-se de todas as cores.

Que estas nossas crianças trabalham a multiplicar e alcançam a dividir.

Que custa tanto o trabalho e que são tantos os resultados.

A nossa vida mudou. O futuro da Rita está a mudar. É nesse sentido que trabalhamos. Nós. No Habilitar.
Nada pode voltar a ser como antes. O chão não pode desabar debaixo dos nossos olhos. Não o podemos
permitir. Não o permitam. Pelas nossas crianças. Que precisam. Que merecem. Não debaixo dos vossos olhos.
Pelo futuro da Rita. Pelo futuro dos meninos e meninas que, como ela, são apoiados pelo projeto Habilitar.
Pelo futuro dos que virão a precisar deste projeto.

Não o permitam.

 

Mãe da Rita

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