Crónicas inclusivas: Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar.

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Crónicas inclusivas: Uma parceria Pais Habilitar e Diário de Aveiro

 

VEMOS, OUVIMOS E LEMOS. NÃO PODEMOS IGNORAR. *

Há cerca de 20 anos eu era uma médica jovem, a fazer um curto voluntariado numa cidade africana. Lembro-me de ter salvado poucas vidas, um número insignificante perante as perdas que presenciei. Desse tempo, recordo a certeza consolidada do meu ínfimo tamanho perante a dimensão do mundo. Talvez suspeitasse, mas conservava a soberba de uma cabeça jovem.

Não precisava de ir tão longe para ter a noção de tamanho, para abalar essa pueril arrogância. Teria bastado não ignorar.

Hoje sou uma médica não tão jovem a trabalhar com uma população frágil. Acompanho crianças e jovens com perturbações do neurodesenvolvimento, agrupados num pequeno número de diagnósticos médicos, mas afinal tão diversos quanto o número de casos. Todos os dias cometo erros, todos os dias aprendo como não fazer e todos os dias me assalta uma certa perplexidade, que não é mais do que a surpresa dolorosa.

Quando consigo descentrar-me de mim mesma, imagino-me do lado de fora da janela do consultório e revejo esse filme de não ficção em que acabei de participar. E tento registar, acreditando que não posso ignorar o que acabei de ver e ouvir. Vejo muitos meninos de idades diferentes, com problemas igualmente diversos. Vejo muitos pais, apreensivos, sós, a contarem-me, com convicção as preocupações, mas também habilidades irreais que não veem, mas queriam ver. Alguns agressivos, porque pareço ter uma lupa que sentem como uma arma e lhes aumenta a angústia. Vejo educadores, professores, técnicos, alguns também agressivos ou a marcar o seu terreno, porque estão atrapalhados. Vejo-me a mim, também atrapalhada, a tentar estar na plateia, quando devia estar no palco, com um papel secundário, mas ainda assim não menos ativo. E quando ajusto o volume do filme, surge um ruído ensurdecedor ou uma confusão de diálogos mudos.

Então uso a imaginação. Pego no filme e coloco-nos, personagens, a agir de forma diferente. Os mesmos, apenas com pequenas correções no argumento. Nós, os tais intervenientes no processo terapêutico (médicos, técnicos, professores), conversamos sobre o que sabemos e não sabemos. Falamos até sobre decretos recentes, bem pensados, que ainda não consolidámos por falta de tempo, mas que nos dão coragem pela filosofia implícita; trocamos impressões sobre estratégias que resultam; somos uma referência segura, ainda que com incertezas, que recebe as famílias com uma firmeza afável. E os protagonistas, pais e filhos, não se sentem atingidos pelas nossas batalhas e inseguranças. Não lhes dizemos que devem ser firmes, para que os filhos cresçam seguros? Como podem ser firmes se os deixamos mais perdidos com a nossa desajeitada crispação?

Quando vejo o resultado dessas pequenas correções sinto coragem. Acredito ser possível.  Mas todos temos que nos alinhar. E nós, que diariamente trabalhamos com pessoas diferentes, temos que estar serenamente à altura.

 

                                                                                  Carolina Duarte

Diário de Aveiro 03 de janeiro de 2019

* Cantata da Paz, Sophia de Mello Breyner Andresen